“Uma anedota”

«No livro de Job […] é introduzida uma figura nova que, posteriormente, faria na Europa uma carreira sem paralelo: Satanás. […] Deus, tal como no ‘Fausto’, resolve fazer uma experiência e permite a Satanás que ele teste até onde vai a piedade de Job: Satanás mata todos os seus filhos, arruína o seu sustento material e tortura-o com doenças. Quando Job se queixa de tanta arbitrariedade e os seus amigos acham pouco correcto em termos religiosos pedir contas a Deus, Job insiste em obter uma explicação de Deus e, com essa atitude, acaba por receber um ambíguo louvor do Senhor. Seria a intenção do teste a de aferir se Job se mantinha fiel à ideia de um Deus justo? Seria o preço por Deus continuar a ser justo a introdução de Satanás? Seja como for, o teste de Job acaba por ir dar a uma teodiceia, a uma justificação de Deus perante os males do mundo, e demonstra a herança que recebemos com esse Deus: a História converte-se num “processo” jurídico contínuo, num processo caracterizado por uma geral míngua de justificação e uma constante consciência de transgressão, que comporta tanto uma necessidade de redenção incorporada (a esperança da chegada do Messias) como igualmente a possibilidade de reclamar garantias processuais. (pp. 52-53)

«A saída do imperador de Roma deu ao bispo de Roma a oportunidade de brincar aos Césares espirituais e de se arvorar em chefe máximo da cristandade. Para tal invocou a estadia do apóstolo Pedro em Roma, assim como um jogo de palavras de Jesus Cristo: uma vez que em grego ‘pétros’ quer dizer ‘pedra’, ele tinha dito: “Sobre esta pedra quero erguer a minha igreja”. O fundamento do papado é, portanto, uma anedota, o que ainda não quer dizer que, por isso, fosse mau. Mas os próprios papas consideraram-no pouco sólido. Assim sendo, forjaram um documento com o título “A doação de Constantino”. Segundo esta, o imperador Constantino teria legado ao Papa Silvestre I, no seu leito de morte, o poder sobre o mundo inteiro, com especial relevo para o Estado da igreja. Somente o humanista Lorenzo Valla viria a descobrir que todo o documento não passava de um embuste. Mas por essa altura o domínio do Papa já se encontrava de tal modo consolidado que Lutero precisou de argumentos de uma ordem bem distinta para voltar a abalar o seu poder». (pp. 70-71)

Dietrich Schwanitz, Cultura: Tudo o que é preciso saber, Dom Quixote

Até gostava que este e aquele comentassem isto.

    • marceano
    • 14 de Janeiro, 2009

    Fui aluno dos jesuitas.
    Sou um cientifico, analista.
    Gosto do azar e da sorte.
    Gostaria de milagres.
    Conheço Fátima, conheço S.Pedro, em Roma.
    Não sou tão céptico.
    Tampouco crente. Já não.
    Se soubéssemos a dimensão, apenas da Via Láctea, e paralelamente, crer num deus à nossa escala do conhecimento, nestes biliões de galáxias do universo amplo,
    que em geral não chega ao saber das pessoas, pergunto:
    Que deus é este que criámos à nossa dimensão, humana, terráquea?
    Teremos que ter sempre um avozinho que nos proteja?
    Deveremos esperar milagres que nunca acontecem?
    Seremos capazes~(somos)~de resolver os nossos problemas?
    Cá para mim, penso, digo, sinto:
    Porta-te bem, respeita o próximo…!!
    Afinal, o nosso amigo JCristo só disse isso.
    E aqui, assim, deito-me no chão, de seguida.
    Sempre.
    Cumprimentos.

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