A absolvição da fé (11)

Quero dedicar este texto aos bombistas-suicidas islâmicos. É comum no Ocidente reagir-se a mais um destes atentados com o pensamento de que o que os motiva é uma qualquer repressão a que estão sujeitos por outras culturas e acontecimentos históricos – guerras, batalhas – que lhes terão sido desfavoráveis, potenciando a hegemonia ocidental. Isto tem algum cabimento em contextos definidos, em países cujo poder tenha sido ou esteja a ser posto em causa por estrangeiros não-islâmicos. Mas o que dizer dos casos da Nigéria, da Costa do Marfim, da Jordânia, do Bangladesh, do Mali ou do Senegal, onde mais de metade da população acredita que atentados suicidas em defesa do Islão são justificáveis – frequentemente, raramente ou assim-assim? Estes dados constam de uma sondagem a 38 mil pessoas realizada em 2002 pelo Pew Research Center for the People and the Press. Nesse estudo, a percentagem de sins (é justificável, muito ou pouco, mas é) é de 82% no Líbano, 73% na Costa do Marfim, 66% na Nigéria, 65% na Jordânia, 58% no Bangladesh, 54% no Mali e, surpreendentemente, 38% no Paquistão, onde houve também 23% de indecisos. A causa essencial para o martírio parece estar precisamente no Islão. Basta termos em conta que o suicida vai ter à sua espera no Paraíso 73 virgens e poderá chamar outras 70 pessoas (a família irá ter com ele certamente). À luz disto, faz ou não sentido a reacção dos pais (tantas vezes televisionada) depois de saberem que um filho se fez em bocados e matou dezenas de pessoas (infiéis) com uma bomba? Mas o mais interessante, enquanto justificação para o suicídio, é que o martírio é uma excelente forma de um homem de fé islâmica escapar ao Juízo Final. Em vez de viver toda a vida e aguardar pela sorte de, no final dos tempos, ser encaminhado ou para o Céu ou para o Inferno (as descrições deste espaço são inúmeras e suficientes para o temer), ele pode fazer-se explodir e matar infiéis, assim fazendo o que lhe é pedido por Deus.

O povo mais sexualmente repressivo que hoje existe no mundo – pessoas que são incitadas a matar por causa de reposições da série Baywatch – é atraído para o martírio por uma concepção do Paraíso que mais não parece ser do que um bordel ao ar livre.

Sam Harris, O Fim da Fé, p. 139
  1. 5 de Janeiro, 2009

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