Hamas (2)

A propósito de danos colaterais:

O problema não está, obviamente, na legitimidade da defesa de Israel, vítima de, entre outras coisas, o envio contínuo de rockets do Hamas contra a sua população civil: suponho que ninguém de boa fé se deixa enternecer pelo carácter “artesanal” dos rockets e que ninguém que pense duas vezes ousa recorrer ao argumento do relativamente pequeno número de vítimas mortais por eles causado (fossem muitas mais, e o Hamas rejubilaria). Sei responder, se esse for, extraordinariamente, o caso. O problema também não está, como é não menos claro, na chamada “desproporção” da resposta israelita: uma guerra é uma guerra, e Israel tem o direito (mais: a obrigação) de matar o maior número possível de terroristas do Hamas, para garantir a defesa dos seus cidadãos (Glucksmann escreveu no Le Monde um óptimo artigo sobre a matéria da “desproporção”). Também sei responder se alguém discordar desta simples evidência. O problema não está, ainda, no facto de o Hamas ter ganho (liquidando, en passant, os elementos da Fatah) as eleições em Gaza: as eleições são uma condição necessária, mas não suficiente, para a democracia, e o facto do Hamas – e do Hezbollah, e de…, e de… – terem como programa nunca desmentido e sempre repetido a destruição de Israel chega amplamente para retirar ao Hamas qualquer tolerância democrática. Não é difícil explicar porque é assim. O problema não está sequer na “má imagem” que a guerra traz a Israel: desde há muitos anos que Israel – como notou, em 1975, Jacques Ellul, num livro que merece a pena ser relido (Trahison de l’Occident; o título não me incomoda) – é pobre do ponto de vista da opinião mundial. Se alguém quiser, explico porque é que a tão invocada “opinião mundial” (forjada, num sem número de casos, através de uma muito atestada manipulação de imagens e relatos e do sistemático uso abusivo de palavras como “massacre” e “holocausto” – ver Jenin) não deve ser levada a sério aqui.

O problema está, efectivamente, na morte de civis. Contrariamente ao Hamas, e aos seus adeptos mais ou menos vocais por várias partes do mundo, o governo israelita distingue os terroristas do grosso da população palestiniana. Mais: o exército israelita é provavelmente o exército no mundo com regras mais estritas no capítulo. Que uma guerra, nestas condições, e com o Hamas usando civis como escudo humano, produza a morte de inocentes, é praticamente inevitável. A questão está, efectivamente, na quantidade dessas mortes. Aqui, a quantidade interessa, e por razões morais. O Hamas (tal como o Hezbollah, que decidiu voltar a entrar agora em cena) não se coloca o problema da morte dos civis israelitas, até porque o seu objectivo é, precisamente, acabar com eles. Para Israel – para o governo de Israel e para os israelitas – a questão é de suma importância. Não por razões de “má imagem”, vale a pena repetir, mas por razões morais. Israel, tentando defender-se, encontra um problema – e um problema que explicitamente reconhece, um problema que é um problema para os israelitas – que os seus adversários não têm. A assimetria é completa. Com quem admitir isto – por outras palavras: com quem admitir o trágico dilema de Israel na sua luta contra o terrorismo e na defesa da vida dos seus cidadãos -, é possível discutir. Com quem se recusar a fazê-lo, francamente, não vale a pena.

Paulo Tunhas, agora no Cachimbo de Magritte
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