do peso a mais

Anda meio mundo indignado com o facto de, em Inglaterra, um casal ter sido impedido de adoptar porque o marido tem obesidade mórbida. Há quem defenda que estamos perante a ressurreição dos ideias eugénicos e que os gordos também têm direitos; são pessoas como as outras, apenas um pouco mais fortes, vá. Afinal, o senhor até tem trabalho, passeia o cão duas vezes por dia, não fuma nem bebe, nunca se sente exausto.

Esquecem-se provavelmente que o senhor tem apenas 37 anos, mas a sua esperança média de vida é bastante reduzida. E, afinal, nem lhe pedem muito: emagreça só um bocadinho até ficar “apenas” obeso, que depois seguimos com o vosso processo. Indignados, porém, o casal e pessoas por todo o mundo advogam o direito à obesidade e à adopção; ao fim ao cabo, mais vale com um gordo do que num lar, parecem querer dizer.

Mais uma vez, falta um pormenor importante: as doenças cardiovasculares são responsáveis por uma percentagem demasiado elevada dos óbitos nos países ocidentais.

Finalmente, e as crianças? As crianças não terão direito a uma família de acolhimento que não seja uma bomba-relógio?

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  • Comentários (17)
  1. Concordo. E parece-me haver outro pormenor: ao que li foi a autarquia que proibiu a adopção, não uma qualquer lei nacional. Se assim for, o casal tem direito a procurar o mesmo serviço noutras paragens; e a autarquia tem o direito a rejeitar gordos, pretos, malcheirosos e pessoas com unhas encravadas.

    • joão martinho
    • 13 de Janeiro, 2009

    rui, falo do risco de morrer ser demasiado elevado entre os obesos mórbidos. não concordo com as últimas palavras do teu comentário.

  2. Não podem estar a falar a sério…

    • João Martinho
    • 13 de Janeiro, 2009

    eu estou, porquê?

  3. Excluindo o facto de me ter custado a crer que estivesses, nada.

    Portanto, pessoas que sofram de um qualquer problema que estatísticamente apresente uma esperança média de vida reduzida podem perfeitamente ver as suas liberdades e direitos serem negadas por uma lei para pessoas saudáveis. Onde é que eu já ouvi isto?

    Quanto às crianças, toda a razão, estão muito melhor num centro de acolhimento do que a terem que dizer na escola que são “filhas” de um pai muito gordo com uma esperança de vida igual à de um bezerro. Bela argumentação, sim senhor.

    Já agora, consegues explicar-me, à luz da legislação que aplaudes, como é que um organismo humano recupera facilmente alguns quilos para passar a ser “apenas obeso”. É pura e simplesmente uma questão de vontade?

    Se sim, concordo. E vou mais longe: não deixar que pais que não tenham o dedo mindinho da mão direita se apresentem nas urnas de voto.

    • José Pedro Monteiro
    • 13 de Janeiro, 2009

    Ora, ora, ainda bem que me alertam, visto ser a única pessoa que comenta aqui e não é autor (obrigado Rui). Pois eu acho que o pessoal que não usa o cinto de segurança deve ser proibido de adoptar, como o pessoal que fuma, como o pessoal que tem propensão genética a ter cancro, o pessoal que não come legumes, o pessoal que não come carne, o pessoal que come e o que não como. E, vai na volta, desculpa João, não te conheço mas também acho que não deves poder adoptar…

    • João Martinho
    • 13 de Janeiro, 2009

    Não sei onde é que já ouviste isso, mas eu não disse que uma pessoa que “estatísticamente apresente uma esperança média de vida reduzida podem perfeitamente ver as suas liberdades e direitos serem negadas por uma lei para pessoas saudáveis”. falei de um caso muito específico e de um direito (liberdade, se preferires) também específico.

    não se trata apenas do direito de uma pessoa a adoptar, mas do direito que a criança a ser adoptada por alguém que tenha condições para o fazer. e não é só ter dinheiro e uma casa porreira, a saúde é também muito importante.

    e enfim, a autarquia referia o facto de o casal poder adoptar desde que o senhor passasse a “apenas obeso”; perdesse uns kilos e passasse a ter um IMC inferior a 40, o limiar da obesidade mórbida.

    mas adiante: a notícia não refere o peso do senhor, mas ele, com 37 anos, tem um índice de massa corporal que é quase o dobro de uma pessoa com o peso ideal médio.

    agora, se querem misturar problemas nos dedos das mãos ou opções alimentares, isso já fica ao vosso critério. por mim, a discussão termina aqui.

  4. Sílvio,

    Eu também estava a falar a sério. Mas creio que não entendeste o que escrevi, pelo menos à luz disto que escreveste: «Portanto, pessoas que sofram de um qualquer problema que estatísticamente apresente uma esperança média de vida reduzida podem perfeitamente ver as suas liberdades e direitos serem negadas por uma lei para pessoas saudáveis.»

    O que eu escrevi foi que na notícia não li que a decisão da autarquia inglesa partiu de uma qualquer lei. Se assim for, é uma decisão desses governantes e o obeso pode perfeitamente procurar o mesmo serviço noutro lado. Se partiu de uma lei então a conversa é outra.

    • José Pedro Monteiro
    • 14 de Janeiro, 2009

    Rui,

    e desde quando as autarquias estão dispensadas de cumprir os imperativos legislativos? Em última instância, se todas as autarquias decidirem impor esta restrição, a legislação nacional aplica-se num vácuo.

  5. De novo, não foi isso que escrevi. Lendo o texto do Público não fica qualquer ideia de que a decisão da autarquia tivesse partido de uma lei; cheira-me mais a arbitrariedade. Nesse caso, se a autarquia tem o direito a rejeitar (sem uma lei que o suporte, mas havendo na legislação um “vácuo” que permita essa arbitrariedade), o obeso terá o direito a procurar noutro lado.

    • PR
    • 14 de Janeiro, 2009

    Vale a pena relembrar o que o João Martinho já disse: é a criança que tem o direito a ser adoptada, não o adulto que tem o direito a adoptar. Convém não instrumentalizar o menor.

    E, partindo do princípio de que os interesses da criança têm de ser salvaguardados, parece-me normal que haja uma seriação dos potenciais adoptantes. Ter 85 anos não pode deixar de ser levado em conta se a ideia é adoptar um miúdo de dois anos.

    Sendo assim, não vejo mal levar em consideração factores como a obesidade e outros que tais. Se a autarquia não levasse em conta os dados sociobiográficos é que seria de espantar.

    Tendo em conta que não se sabe quais eram as reais alternativas (era o único adoptante disponível? se não, quais eram as outras possibilidades), o que me parece é que o máximo que se pode dizer é que não há grande base para fazer julgamentos relativamente à decisão da autarquia. Mas também acho que se o tipo não estava disposto a perder uns quilinhos para ficar com a criança, não devia ter lá grande vontade…

    Finalmente, aquela coisa da autarquia poder mandar os pretos e os tipos das unhas encravadas mendigar para outra freguesia não me parece inovadora. Foi o que o Hitler fez aos judeus que, burros, optaram por não decidir livremente mudarem-se para os países anexos onde poderiam usufruir de serviços diferentes…😛

  6. Confesso que também não fico particularmente espantado com a notícia. A adopção é uma coisa bastante séria e não deve ser qualquer um a poder ficar com uma criança.

    Devem haver requisitos e a saúde tem de ser um deles. Se o tipo adoptar a criança mas morrer 1 ou 2 anos depois, o que vai acontecer ao miúdo? A mãe consegue tratar dele sozinha? Se não conseguir, volta a criança para o centro de acolhimento? A mãe casa-se outra vez? Vai viver com a tia (será que ela também é obesa?)? O que acontece à criança? E se, vivendo numa casa ‘obesa’ a criança também ficar com excesso de peso? Coloca-se em perigo assim uma criança?

    A adopção não é um direito adquirido. Logo, colocar restrições à adopção não é condicionar qualquer liberdade. É ser responsável e ter em atenção os interesses superiores da criança. É algo a que as pessoas podem aspirar, caso consigam provar que podem dar às crianças uma vida melhor do que aquela que conseguiriam no Centro de Acolhimento ou com outra família.

    E, verdade seja dita, se o tipo queria mesmo adoptar o puto, não poderia perder uns quilos?

  7. Andaremos todos loucos?
    Leiam-se, companheiros! Leiam-se!

  8. «É a criança que tem o direito a ser adoptada, não o adulto que tem o direito a adoptar» e «Colocar restrições à adopção não é condicionar qualquer liberdade.»

    Concordo. Um adulto autista, um sociopata e um criminoso condenado são exemplos de pessoas que não têm o direito a adoptar. No caso do obeso saberão melhor os especialistas, em cujas opiniões suponho que se baseie esta lei inglesa. Se ela existir, porque caso contrário foi uma decisão arbitrária e, portanto, distinta do que poderia ser decidido noutras paragens, o que é indício de liberdade. Não significa isto que eu não esteja a favor de que se legisle a proibição de obesos mórbidos de adoptar. Não sendo médico, parece-me correcta a decisão da autarquia inglesa.

    • PR
    • 15 de Janeiro, 2009

    «Não significa isto que eu não esteja a favor de que se legisle a proibição de obesos mórbidos de adoptar. Não sendo médico, parece-me correcta a decisão da autarquia inglesa.»

    Atenção, a mim parece-me pateta proibir a adopção de crianças por parte obesos mórbidos. Mas o historial clínico não pode deixar de ser um dos factores a ser ponderados. E, não se sabendo os contornos concretos deste caso, a decisão correcta é a suspensão do juízo.

    • Sílvio Mendes
    • 15 de Janeiro, 2009

    Nos moldes em que me apresentam os argumentos, continua a parecer-me tudo bastante disparatado. Sobretudo porque desenterra ideias que me assustam.

    Vamos ver. Notícia:

    «a cidade também lhes proibiu a possibilidade de adoptar devido ao peso do marido, que segundo os médicos é uma pessoa saudável.»

    é “difícil perder peso sobre pressão”, diz o senhor. Ele sabe mais disso do que eu, que com ou sem pressão nunca tentei.

    Segundo a BBC News, o peso máximo não é uma das linhas que o Departamento para Crianças, Escolas e Famílias tem em conta para a adopção.

    Feitos os destaques, são um apontamento:

    Rui,
    «e assim for, é uma decisão desses governantes e o obeso pode perfeitamente procurar o mesmo serviço noutro lado. Se partiu de uma lei então a conversa é outra.»

    Por um lado dizes que não é grave porque ele pode procurar o serviço noutro lado, mas por outro aprovas a medida da autarquia. Logo, posso partir do princípio que defendes que as restantes autarquias/instituições apresentem a mesma justificação para lhe negar a adopção. É aqui que está o ponto da discórdia.

    E se a sua esposa engravidasse? Os serviços de acção social deveriam retirar a criança ao casal ou evitar que ela nascesse?

    A vida é assim. Gorda, feia, dura cem anos de vida, dura doze, bonita, elegante, amputada de um braço, com doenças imprevisíveis e impossíveis de regulamentar.

    E a vida real é a melhor vida para qualquer criança à espera de adopção. Muito melhor que aguardar numa Instituição, num contexto familiar artificial, anos a fio à espera que a autarquia encontre a família idílica para a criança.

    “Nascer é morrer, Maria Bárbara”. E depois?

  9. «Por um lado dizes que não é grave porque ele pode procurar o serviço noutro lado, mas por outro aprovas a medida da autarquia. Logo, posso partir do princípio que defendes que as restantes autarquias/instituições apresentem a mesma justificação para lhe negar a adopção. É aqui que está o ponto da discórdia.»

    É isso tudo. É que a minha opinião é… a minha opinião. Porque é que eu ou tu haveríamos de querer impor a nossa opinião sobre a dos outros? Naturalmente num país livre haverá autarquias de cores várias. Perto da minha casa, por exemplo, há uma terreola comunista, que tem feito coisas interessantes por exemplo no que diz respeito à água, com gestão comunitária e tal. Acho isso giro; só quero é que me deixem escolher outra terreola, onde me sinta melhor.

    «E se a sua esposa engravidasse? Os serviços de acção social deveriam retirar a criança ao casal ou evitar que ela nascesse?»

    A criança seria deles. São questões distintas.

    «A vida é assim. Gorda, feia, dura cem anos de vida, dura doze, bonita, elegante, amputada de um braço, com doenças imprevisíveis e impossíveis de regulamentar.»

    Concordo plenamente. Tu é que queres regulamentar: queres que a lei permita que obesos mórbidos adoptem. E eu, tratando-se de um tema delicado, posso concordar. Mas se até os médicos não forem unânimes nesta questão defendo que não haja lei alguma.

    «E a vida real é a melhor vida para qualquer criança à espera de adopção. Muito melhor que aguardar numa Instituição, num contexto familiar artificial, anos a fio à espera que a autarquia encontre a família idílica para a criança.»

    Ao contrário de ti não tenho elementos para comentar isto. Não sei o que será melhor para a criança.

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