Por favor, mais coisinhas de esquerda

Em resposta a este texto do José Pedro Monteiro, cuja secção sobre Gaza me visa directamente, aqui deixo alguns apontamentos:

  • Se Israel bombardeia ou não alvos onde não há inimigos do Hamas isso é algo que não tenho visto criticado pela comunidade internacional (que é mais que os Estados Unidos). A condenação virá naturalmente com os despojos da guerra. Nesse capítulo Israel tem já o merecido fardo (que ficará ainda mais pesado), como o têm também os Estados Unidos. O Hamas, curiosamente, mantém-se leve, levemente, como quem é injustiçado.
  • A esquerda prefere a contagem dos corpos à moralidade. Assim, uma forma de justificar as críticas a Israel é comparar o número de mortos provocados pelos palestinianos com o provocado por israelitas. Concordo. Nesse sentido, acho que Hitler é (dentro da minha tabela de parâmetros para o crime) menos criminoso do que Estaline.
  • O Hamas está aberto à negociação. Quanto a um cessar-fogo com Israel, as exigências do Hamas são simplesmente que Israel abandone as hostilidades, abra Gaza e respeite a pretensão de auto-determinação palestiniana. É apenas um pouco mais do que o Hamas tinha na trégua anterior com Israel.
  • Não é preciso um judeu ir para o Irão ou outro país “moderado” árabe para ser morto. Os muçulmanos costumam tratar disso entre si, matando-se uns aos outros por motivos religiosos. Continuo a achar estranho como ninguém defende um Governo de União com Hamas e Fatah. Seria bombástico.
  • A esquerda vê a estada judaica na Palestina como cingindo-se a 1948 e ao período subsequente. Já no início do século havia entradas massivas de imigrantes judaicos, fugidos ou não de outros países, e o número cresceu exponencialmente ao longo dos anos. Já bem antes de 1948 houve combates entre judeus e muçulmanos na Palestina, com a derrota generalizada dos palestinianos. Israel tornar-se-ia um Estado independente com o passar do tempo. A “humilhação” palestiniana também se deve ao seu atraso crónico de pastores e agricultores ignorantes que foram afrontados por vizinhos muito mais capazes.
  • «O Hamas, volto a insistir, foi eleito em eleições transparentes. Bem mais que os torcionários que pululam pela Arábia Saudita, Qatar, Jordânia.» E por aí adiante: China, Cuba, Coreia do Norte, Zimbabué, etc.
  • A despropósito, o Ensaio Sobre a Cegueira é um belíssimo filme.
  • Sobre o empurrão judaico (ou sionista, caso se leia só com o olho esquerdo), o que há a dizer é que isso acontece, é normal e os apoiantes de hoje podem ser os inimigos de amanhã. Em política internacional cada Estado segue os seus interesses imediatos, não os de amanhã (como escreveu aqui o Phillipe).
  • Paradigmático disso é como o Fidel se juntou à URSS para não levar Cuba à falência, numa altura em que o embargo – aliado a desastrosas reformas económicas – o fez olhar para fora do país à procura de um apoiante de peso. E que peso: até à implosão da URSS Cuba pôde fumar charutos à vontade e assobiar para o lado. Depois de 1990 é que a realidade lhe caiu em cima. Agora até a liberalização em certos sectores, bem como os bónus pecuniários para os administradores públicos que mais produzam, são enevoados como tendentes ao socialismo.
  • «Se alguém acredita que esta guerra poderá fortalecer a solução de dois Estados ou é parvo ou está a mentir, incapaz de conter os instintos belicosos.» Esta guerra poderá fortalecer a Fatah (e certamente vai fortalecer a ala mais extremista do governo israelita). A ideia é mesmo demonizar o Hamas, enfraquecê-lo e deixá-lo na beira do prato de um acordo dentro de uns anos com a Autoridade Palestiniana. Parece inevitável, a prazo, bastando para isso que alguns governantes da coligação israelita sejam relegados para a oposição e que o mayor de Jerusalém coopere.
  • Com o Hamas do outro lado da mesa certamente não haverá negociação nenhuma. Deveria? O Zapatero deveria ter cedido às exigências da ETA de independência do País Basco? E se, depois disso, o nacionalismo basco, ao impor-se aos interesses espanhóis, ressuscitasse a ETA para uma nova ronda de exigências? Vamos mesmo querer negociar com extremistas? É que se vamos digam-me, que eu quero ir comprar um colete à prova de balas. E aproveito para rezar um bocadinho a Alá.
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  • Comentários (9)
    • josepedromonteiro
    • 15 de Janeiro, 2009

    Dois posts num dia dispensam-me para o próximo mês:

    Rui:

    Fardo? Eh pá, estavas a falar de moralidade há um bocado? Vê lá quem tem levado com o fardo. Ou o fardo é só ser condenado internacionalmente porque se desrespeita uma resolução do CS?

    Rui, que moralidade? Quanto às contas e à moralidade, não subscrevo a analogia entre o Holocausto e o que se passa em Gaza da mesma forma que rejeito a analogia entre o estalinismo e o nazismo. Estamos a falar de coisas com naturezas diferentes. Não é só a contagem de mortos, é também o facto de (e não me reportando apenas a 48) Israel insistir em desrespeitar, boicotar e, em certos momentos, através da violência mais gratuita, hipotecar o direito da consolidação de um Estado palestiniano.

    Qual o problema das exigências do Hamas?

    Rui, os muçulmanos são uns bárbaros: é isso? Daqui decorre a tese supremacista que aponta os outros como atrasados. Olha, por que não para África e em força, somos mais desenvolvidos, mais capazes…

    China, Zimbabwe, etc? Qual é o sentido?

    A questão é que Israel escolhe sempre como aliado o que não está no poder…estranho… se isso não diz tudo da vontade israelita em alcançar a paz, não sei o que dirá..

    A posta de Cuba não faz sentido nenhum…

    Ouve lá, e quem és tu para dizer aos palestinianos em quem devem votar? São terroristas? Também os israelitas o eram (Begin até chegou a chefe de Estado)

    Está bem, então não se negoceia com o Hamas, nem com a Fatah,nem se tinha negociado com o MPLA, nem com o ANC. Olha, risca a Palestina do mapa…

    • Sílvio Mendes
    • 15 de Janeiro, 2009

    Seria interessante conseguir pensar nos temas sem a ditadura da dicotomia esquerda-direita.
    São absolutamente desnecessário e enchem de nevoeiro a discussão sobre problemas específicos.

    Que alcanças tu chamando Cuba e Estaline ao barulho? Apenas a oportunidade de usar argumentos com alguma validade.

    Ainda por cima:

    «Não é preciso um judeu ir para o Irão ou outro país “moderado” árabe para ser morto. Os muçulmanos costumam tratar disso entre si, matando-se uns aos outros por motivos religiosos.»

    «A “humilhação” palestiniana também se deve ao seu atraso crónico de pastores e agricultores ignorantes que foram afrontados por vizinhos muito mais capazes.»

    Isto diz o resto sobre a origem e solidez do teu pensamento.

    Sobre a ETA (mais ruído para esta discussão, mais confuso, mais pés pelas mãos), tens toda a razão, uma vez mais. O ideal seria localizar os esconderijos bascos, asturianos, algarvios (?) dos terroristas e bombardear tanto esses locais como as fronteiras por onde lhes passam o armamento e, já agora, o Jardim de Infância de Castro Marim. É claro que tal operação teria custos inevitáveis e necessários para as populações civis. Mas seria tudo em nome da segurança ibérica.

    Quanto ao Ensaio sobre a Cegueira, versão Meirelles, é natural. A estética do realizador é, como bem sabes, completamente distante da do escritor. Mas também não vou tão. Tenho a certeza que as tuas opções de leitura não são manipuladas por esse tipo de filtros.

  1. Zé,

    A resolução do Conselho de Segurança foi aprovada com os votos contra de Israel e dos Estados Unidos.

    Que fardo maior do que ser reprovado pela grande maioria dos países mundiais, ao passo que os meus vizinhos terroristas (que por sinal matam rivais políticos e regem-se segundo as leis da Sharia) são aclamados como a solução para um conflito que, a julgar pelo que se diz por aí, é inteiramente culpa minha/nossa?

    Que Israel hipoteca uma solução pacífica estou de acordo. Já o fez várias vezes estupidamente, talvez desta vez também esteja a exagerar na reacção. Mas não estará também a ser preventiva?

    Quanto à teoria da superioridade naturalmente não a vou comentar. Nunca o afirmei e é absurdo ir por aí.

    Estavas a falar de atrocidades. Só quis juntar mais alguns países à lista😉

    As negociações entre Israel e Mahmud Abbas antes da tomada de poder pelo Hamas foram o quê então? A entregue do Sinai à Síria foi o quê? Sionismo?

    Tens razão. Eu não sou ninguém; sou apenas um puto ranhoso que manda uns bitaites. Os palestinianos votam em quem quiserem. O Hamas é o governante legítimo da Palestina, já o havia escrito há tempos.

    Com a Fatah parece haver condições para negociar. Com o MPLA a negociação foi de ruptura e foi feita com muita pressão internacional à mistura.

    Também não vou comentar a parte de riscar a Palestina. Vai completamente contra o que tenho escrito.

    Sílvio,

    Não faz sentido pôr de parte os dois lados da balança aqui: a esquerda é pró-Palestina e pró-Hamas, a direita é pró-Israel e nem por isso deixa de ser pró-Palestina. As reacções ao conflito são distintas vindas da esquerda ou da direita. Este é um conflito que revela muito do que a esquerda e a direita pensam.

    Chamei Estaline porque, seguindo a lógica da contagem de mortos, ele cometeu mais atrocidades do que Hitler. Chamei Cuba e outros países porque o Zé falava de despotismos e pareceu-me relevante fazê-lo olhar para outro hemisfério.

    Na parte do “atraso crónico” a História documenta-o: antes de 1948 a Palestina era um “reino” de ignorantes camponeses. Quanto à outra citação, a distinção entre islão sunita e islão xiita é exemplificativa. Também o são os homicídios perpetrados pelo Hamas a membros da Fatah. Estas coisas existem, por mais que lavemos a cara.

    A solidez do meu pensamento não é muita, claro. Mas é melhor do que advogar o diálogo com quem quer simplesmente tirar um povo do mapa.

    Há muitos empresários bascos que estão de acordo contigo. Os “impostos patrióticos” são coisa justa e o 11 de Março foi um acidente. Viva a ETA.

    Falei do filme, agora falo do livro. O Ensaio sobre a Cegueira é um belo livro. Felizmente não vejo manipulações a cada esquina. Gosto de confiar na capacidade de raciocínio do Homem.

    • josepedromonteiro
    • 15 de Janeiro, 2009

    O fardo de, há anos, não ter direito ao seu próprio Estado, ver o seu Estado a ser colonizado (existem, ou também é uma invenção dos fanáticos muçulmanos?). Quanto a matar rivais políticos, o Rabin foi assassinado por quem? Sharia, na Palestina? Onde leste isso? Solidariedade com o Hamas? Se a UE, Israel e o EUA não os reconheceram. ISarel não votou nada contra porque não estava no CS.

    “Já no início do século havia entradas massivas de imigrantes judaicos, fugidos ou não de outros países, e o número cresceu exponencialmente ao longo dos anos. Já bem antes de 1948 houve combates entre judeus e muçulmanos na Palestina, com a derrota generalizada dos palestinianos. Israel tornar-se-ia um Estado independente com o passar do tempo. A “humilhação” palestiniana também se deve ao seu atraso crónico de pastores e agricultores ignorantes que foram afrontados por vizinhos muito mais capazes.”

    Isto não é uma apologia à colonização dos menos capazes pelos mais capazes?

    Quanto À negociação, o Hamas está lá desde 2006, Antes disso, se o problema é o Hamas , por que não conseguiram negociar com a Fatah? Porque não quiseram, e usaram os mesmos argumentos que estás a usar.

    Reacção preventiva? Certo… convencido…(Já agora, preciosismo, não há guerras simétricas)

    Quanto ao pró-Hamas está equivocado, e a tua simplificação da realidade parece mais uma necessidade de afirmação existencial: abomino o Hamas, como abomino o Likud (a diferença é que eu não acho que se deva bombardear Israel indiscriminadamente, mesmo depois desta guerra). Tão simpática que é a direita, gosta de todos, os de esquerda é que são os malandros..que argumento é este Rui?

    O problema é que este problema existencial parece que acometeu todos os portugueses e ocidentais. O problema é levarmo-nos demasiado a sério

  2. O Rabin foi assassinado por um judeu de extrema-direita, que achou que o Rabin estava a conceder coisas a mais aos muçulmanos. Foi um adolescente que o matou, não um rival político. Que comparação…

    «Isto não é uma apologia à colonização dos menos capazes pelos mais capazes?»

    Não, nada disso. Os imigrantes israelitas entraram na Palestina sem que os palestinianos os contrariassem. Tinham era de cumprir todas as especificações impostas, inspiradas no Islão. Este é um problema religioso, claro.

    «Por que não conseguiram negociar com a Fatah? Porque não quiseram, e usaram os mesmos argumentos que estás a usar.»

    Dizes isto sabendo que, nos últimos anos, várias sondagens saíram mostrando que os israelitas são massivamente a favor de um Estado palestiniano, da divisão de Jerusalém, e que a própria Livni disse-se disposta a concretizar isso no seu mandato. Vês imperialismo por todo o lado.

    Não há guerras simétricas, de facto.

    Também abomino o Hamas e o Likud. A propósito, a ideia de proibir partidor árabes em Israel partiu do partido de extrema-direita que está na coligação. Em tempos de guerra é mais fácil fazer passar estas políticas.

    És pró-Hamas na medida em que acharias correcto Israel reabrir Gaza e deixar o Hamas no comando de um Estado palestiniano constituído, assim sujeitando Israel a ser exterminada. O que diz o amigo Ahmadinejad sobre Israel?

  3. Rui:

    Não sei até que ponto chamar a Direita e a Esquerda à baila traz alguma vantagem argumentativa. Creio que o eixo Esquerda-Direita está relacionado, principalmente, com a dimensão do Estado e assuntos económicos. De tal forma, levantar tais questões, em termos de política internacional, é um pouco desajustado. Já se falou, em posts anteriores, de realismo político. Talvez sejam denominações mais vocacionadas para esta discussão.

  4. Não deixa de haver uma clivagem na interpretação do conflito israelo-palestiniano por políticos de esquerda e políticos de direita. E isso é interessante.

    • Sílvio Mendes
    • 15 de Janeiro, 2009

    Não acho nada interessante. Acho pura e simplesmente quadrado. E não me agrada nada que presumas opiniões que eu, por exemplo, nunca afirmei por me considerares de esquerda. (Eu sou um exemplo, neste caso, como outro qualquer).

    Se em vez de me ouvires, me enquadras nesse carneirismo que consideras interessante, então nem vale a pena argumentar.

    O que digo e reafirmo é que me choca esta atitude dita “de direita” (quero que as direitas e as esquerdas se espumem!), de pura cumplicidade, e até algum perverso prazer, sobre uma questão que é pura e simplesmente um massacre sem escrúpulos nem justificações aceitáveis a uma população inocente já suficientemente martirizada pelo tempo. Ou preciso fazer uma lista das condições de vida dos palestinianos em questão?

    «A “humilhação” palestiniana também se deve ao seu atraso crónico de pastores e agricultores ignorantes que foram afrontados por vizinhos muito mais capazes.»

    Insisto, esta argumentação é de uma falta de respeito e sensibilidade para com a diversidade humana absolutamente intolerável.

  5. Porque falei de esquerda e de direita não te encaixei (ou ao Zé) necessariamente nos moldes. O que disse foi que, pelo que leio, a esquerda tem pedido paz, o que equivaleria agora que a guerra vai a meio – no meu entender, sublinho – a legitimar e reforçar o poder interno do Hamas, aliás o efeito contrário ao pretendido por Israel, certamente.

    E é extremamente interessante esta questão, que aliás é tratada num livro que li há uns três anos talvez (qualquer coisa como “Onde pára a esquerda”, escrito por um liberal de esquerda, sublinhe-se), em que o autor discorria sobre vários aspectos da política externa dos partidos da esquerda dita moderada no século XX. Aí, no que respeita sobretudo à URSS, ele criticava a utopia dos que pensam favorecer a paz demarcando-se de ambas as posições numa contenda bilateral.

    É o que está aqui em causa, penso: a defesa da paz, que aliás é o que une a generalidade dos seres humanos, não pode equivaler a niilismo. Se eu, no caso deste conflito israelo-palestiniano, simplesmente exigir a Israel que aceite as exigências do Hamas (de acordo com o cessar-fogo egípcio), estarei a patrocinar um reforço de poder do Hamas. A paz virá mas será certamente temporária. E o Hamas, pelo que faz à Fatah e pelo que diz sobre os judeus nas suas “teses”, não é propriamente um vizinho aprazível para qualquer fazendeiro.

    «Uma questão que é pura e simplesmente um massacre sem escrúpulos nem justificações aceitáveis a uma população inocente já suficientemente martirizada pelo tempo. Ou preciso fazer uma lista das condições de vida dos palestinianos em questão?»

    Aí está o que nos separa. Esta questão não é tão simples que possa ser resolvida com um mero cessar-fogo. Mais guerras virão, mas exigências de paz tuas virão e a paz de facto nunca existirá. Haverá apenas uma paz podre. Quem quer estar sempre com os olhos nos ombros?

    «Esta argumentação é de uma falta de respeito e sensibilidade para com a diversidade humana absolutamente intolerável.»

    Acho interessante que apoies indirectamente a ideia salazarista da inteligência pura, originária, que no exemplo ele atribuía aos portugueses. Segundo Salazar, os portugueses não precisavam da escola para serem inteligentes. Lamento discordar. Se digo que os palestinianos eram uns ignorantes atrasados em relação aos israelitas, que chegaram de países muito mais desenvolvidos, digo o mesmo dos portugueses em comparação com a generalidade dos países europeus. Em muitos aspectos estamos um século atrasados. Na educação, especialmente, por obra e graça do génio de Salazar.

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