«Um monte de sarilhos»

Se esta não fosse uma sociedade intensamente secularizada, em que os católicos vivem fora e muita vezes contra a Igreja, e se a indiferença e a credulidade não tivessem substituído a fé, ninguém se espantaria com o que disse o cardeal-patriarca na Figueira da Foz. Parece claro e, mais do que isso, irrefutável que o casamento entre uma católica e um muçulmano é, ou devia ser, “um monte de sarilhos”. O casamento entre uma católica e um muçulmano é mesmo em bom rigor impossível, excepto, se um ou outro se converterem, hipótese em que, evidentemente, já não se trataria de um casamento entre uma católica e um muçulmano. Só a confusão de espírito e a geral complacência do tempo admite o contrário, como admite tudo, ou quase tudo, que vai a favor da sua vontade e do seu prazer.

Resta, no entanto – além do problema puramente religioso -, um problema social, que só em parte deriva da religião: o problema da mulher nos países muçulmanos. D. José nem quer imaginar uma católica sujeita ao regime das muçulmanas. Suponho que não se estava na altura a referir ao regime dietético ou a qualquer espécie de imposição ritual, embora, como ele com certeza não ignora, a separação entre o judaísmo e o cristianismo na prática nasceu do que se podia ou não podia comer (ou, no caso, beber) – quem não come (ou bebe) em comum, não adora em comum. O que manifestamente perturba o sr. cardeal é a subordinação da mulher ao homem e a sua inferioridade (que roça o ontológico) no mundo islâmico, como, aliás, durante dois milénios sucedeu no mundo que a Igreja de Roma governava.

Há aqui um lapso do sr. cardeal. O mundo islâmico não é homogéneo. Entre a Arábia Saudita e, por exemplo, a Indonésia existe um abismo. E um abismo maior entre os muçulmanos de um Estado muçulmano e as comunidades muçulmanas da Europa, até quando estas, para afirmar a sua diferença, se radicalizam. Os casais “inter-religiosos” que pressurosamente protestaram contra as divagações do sr. D. José são portugueses de Portugal, partilham da invertebrada cultura indígena, repetem a ortodoxia dominante da tolerância e do “diálogo” e muito presumivelmente não acham que têm a verdade “única” e a verdade “toda”, como aqueles de quem o patriarca se queixa. Mas, para ir ao fundo da questão, o que é um católico ou um muçulmano que não tem a verdade “única” e a verdade “toda”?

Vasco Pulido Valente, no Público de hoje
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