Esta guerra é legítima?

Os israelitas parecem acreditar que sim. Uma sondagem, ontem relatada pelo Público, aponta para 90% de apoiantes desta ofensiva de Israel, que é, diga-se, impulsionada por Ehud Olmert, enquanto Ehud Barak tem vindo a defender um cessar-fogo e uma trégua duradoura com a Palestina. Mas o que fará desta uma guerra legítima? Mesmo sendo o Hamas um grupo terrorista, que advoga o extermínio de judeus, isso não faz com que uma guerra contra o Hamas (e consequentemente com efeitos nefastos na vida de outros palestinianos) seja legítima. E já tem sido acenado vezes sem conta – grande parte das quais infundadamente – o conceito de guerra preventiva para que possamos aceitá-lo injustificadamente neste caso, se Israel assim definir esta ofensiva.

A questão está então em saber se esta é uma mera guerra de agressão (e, portanto, desde logo condenável enquanto tal) ou se Israel está a usar de legítima defesa. É essa distinção que tornará aceitáveis ou não os ataques israelitas em Gaza. Para o sabermos melhor temos, então, de recuar ao início da operação Chumbo Fundido.

  • A trégua iniciada em 19 de Junho de 2008 tinha uma duração prevista de seis meses. Terminou a 19 de Dezembro e o Hamas anunciou, nesse mesmo dia, que não renovaria o acordo, alegando entretanto que Israel havia infringido as regras e havia atacado militantes seus.
  • Em 4 de Novembro foi noticiado que Israel havia morto seis milicianos do Hamas e deixado três feridos. A resposta do Hamas deu-se no dia seguinte: 20 rockets foram lançados sobre o sul israelita.
  • O Hamas diz que a sua rejeição de um novo cessar-fogo deveu-se à violação do que vigorava por Israel; Israel diz que o seu ataque aos milicianos do Hamas, a 4 de Novembro, foi preventivo e que, aliás, deu-se no seguimento de informações secretas de que o Hamas estaria a aproveitar o cessar-fogo para se reabastecer de armas pelos canais por onde também recebe alimentação do exterior.
  • Não há, portanto, certezas quanto ao que quer que seja. Se, de facto, o Hamas aproveitou a trégua com Israel para se munir de mais armas com vista a prosseguir uma guerra em seguida, então a ofensiva israelita pode ser considerada defensiva e legítima. Caso contrário não o será.
  • O que se sabe é que 2008 foi o ano em que, de longe, o Hamas mais bombardeou Israel (1700 rockets, o dobro da média dos anos anteriores), com foguetes Qassam, fabricados em Gaza e com um alcance máximo de 16 km.
  • Daqui se depreende que uma eventual abertura de Gaza, sem controlo como pretendem o Hamas e os inúmeros pacifistas europeus que por aí pululam, poderia ter como consequência um muito superior abastecimento de armas, nomeadamente mísseis de maior alcance, suficientes para bombardear os edifícios do Governo israelita (alguém duvida de que o Hamas o faria?).
  • Sabe-se também que ao longo deste conflito foram lançados pelo Hamas mísseis de maior alcance fabricados na China e no Irão.
  • Também deve registar-se que quando, em 2008, Jimmy Carter afirmou que não é verdade que o Hamas não reconheça Israel enquanto Estado, declarando que se as fronteiras fossem encolhidas para as vigentes aquando da Guerra dos Seis Dias, Khaled Meshaal (o líder do Hamas) negou os ditos de Carter.
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  • Comentários (2)
    • josé pedro Monteiro
    • 18 de Janeiro, 2009

    Rui

    Estavas quase, quase, quase a fazer um registo mais ou menos equidistante das coisas mas não resististe a mandar uns petardos nos últimos pontos.
    Só uma questão: Israel quebrou o cessar.fogo. O Hamas quis abastecer-se de armas. Não me parece que isso seja violar um cessar-fogo, certo?Além do mais Israel não deixou de se abastecer de material bélico. Por que pode um lado garantir a sua defesa e o outro não? Qual é o problema de comprar armas ao Irão e à China? Contragate? Quanto ao que disse o Carter e o desmentido, como já me cansei de repetir, dentro do Hamas há facções. É normal que esta guerra só tenha ajudado a fortalecer as mais polarizadas. Assumindo isto como uma guerra, com muitas particularidades que afectam os argumentos de parte a parte, se esquecermos essas particularidades num esforço de compreender ao conflito percebemos que afinal, o cessar-fogo não foi quebrado pelo Hamas. Não sei se estás a perceber onde isto nos leva. Nem vou discutir aqui o problema das preemptives e preventive wars…Isso dava pano para mangas…

  1. Bom comentário. Vou ler umas coisas sobre “preemptive and preventive wars”. Se alguém me quiser acompanhar, deixo aqui o link para o paper “The implications of preemptive and preventive war doctrines: a reconsideration”, de Colin S. Gray.

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