Ruído

  • Afirmar que uma discussão dos aspectos políticos do conflito israelo-palestiniano, por não ter em conta a mortandade decorrente dos bombardeamentos, é repugnante e que a defesa do ataque israelita decorre de prazer sentido pela morte de palestinianos. A ideia de que só quem defende o fim das hostilidades é que é “humano” e advoga a paz é que é repugnante.
  • Dizer que uma afirmação do género «os palestinianos foram facilmente derrotados nos confrontos com os israelitas antes de 1948 porque viviam da agricultura, eram ignorantes e as suas várias tribos haviam impedido uma organização militar» esconde uma tese supremacista e é um atentado à dignidade de um povo. Não se poder afirmar que uma pessoa ou um grupo delas é atrasado comparativamente a outro e num aspecto específico é o resultado de um relativismo atroz de quem despreza a realidade e adoraria refundar a espécie humana, certamente com uma moralidade mais condizente com os caprichos dessa pessoa.
  • Declarar que os defensores de Israel nesta guerra acreditam que os palestinianos são burros e que a sua decisão de eleger o Hamas significa que nunca deveriam ter tido a oportunidade de ir às urnas, tal é a sua inferioridade cerebral. Pelo contrário: os palestinianos estão a ser inteligentes o suficiente para que se preveja uma vitória esmagadora da Fatah nas próximas eleições. Foi essa mesma sensibilidade política dos palestinianos que manteve a Fatah (apesar de corrupta) no poder durante largos anos.
  • Reconheço que é redutor designar (como fiz noutros posts) apenas por «esquerda» aquilo que é um aglomerado de facções da extrema-esquerda europeia com um apolitismo jovem mais ou menos generalizado. Felizmente não é suficientemente expressivo para governar o número daqueles que, sob a capa de uma superioridade moral pintada no niilismo pacifista, querem impor uma ideia de paz mundial que não é mais do que podre e que não sobreviveria ao soprar de um sociopata.
  • Deixo para o fim este vómito de argumento, de tal forma ignóbil que revela todo o carácter e a moralidade superior de alguns pacifistas: a afirmação de que a ofensiva israelita em Gaza (de uma forma ampla, designando todo o conflito israelo-palestiniano) se assemelha às atrocidade nazis e ao Holocausto. Os números, a intencionalidade e as imagens tornam esta ideia (apoiada por José Saramago) doentia.
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  • Comentários (11)
    • josé pedro Monteiro
    • 18 de Janeiro, 2009

    Rui,

    que coisa mais bafienta…

  1. Um dos méritos da tua multiplicação de posts dispersos mas repitivos sobre o mesmo tema é o facto de me teres afastado desta discussão. Já não sei onde se discute o quê, nem para quê, quando todas elas perdem identidade, multiplicando-se em aparições diversas – mais do mesmo mas com máscaras diferentes.

    Não se justifica fazer dez posts sobre um assunto quando não se tem absolutamente nada a acrescentar sobre o tema, a não ser uma repetição do carnaval de lugares-comuns, expressões lidas numa qualquer crónica e uma absurda necessidade de afirmação como uma pessoa de direita.

    Pelo bem da diversidade de opinião, pela vontade de alimentar uma discussão em vez de a esvaziar, pelo respeito de todos os que se envolvem na conversa, a estratégia a seguir devia ter sido outra.

    Conseguiste esvaziar tudo, perdi-me na milagroso multiplicação de posts, não tenho tempo nem engenho para andar à procura deles. Foi, sem dúvida, um belo exemplar de uma estratégia ruidosa.

    Quanto à mudança de linguagem e necessidade do meta-ruído, também não surpreende.

  2. Não, de todo. Este post foi uma afirmação do que, no meu entender, deve ser arredado de uma discussão sobre este tema. Como tinha referido anteriormente ao JPM, anotei uma série de tópicos que me pareceram relevantes do que fui lendo (aqui e noutros lados) e foi com base neles que este e outros textos se seguiram.

    Um assunto complexo requer uma “multiplicação de posts”. Não se resume ao banal “esta guerra é ilegítima porque estão a ser mortas criancinhas e o mundo precisa é de paz”. Com o JPM tem sido possível discutir o tema, tornando visíveis as distâncias mas com enriquecimento (falo por mim).

  3. De acordo. Requere uma multiplicação de posts, desde que o novo acrescente informação ao anterior. Em vez de ser apenas uma reafirmação do mesmo. É uma espécie de levantar a voz para se ouvir mais alto. Foi isso que quis dizer.

    « Não se resume ao banal “esta guerra é ilegítima porque estão a ser mortas criancinhas e o mundo precisa é de paz”. »

    Que leitura devo fazer disto? Com o SM a discussão não passa deste argumento. Será isso?

    • José Pedro Monteiro
    • 19 de Janeiro, 2009

    Rui,

    imensas lacunas e confirmações do que disse: na verdade, quem defende o fim das hostilidades quer a paz, quem não quer, quer a guerra. A não ser que abracemos um conceito holístico de paz, e então passamos para a violência latente e manifesta, truncada e directa, como defendia o Galtung, mas olha que vais arrepender-te de entrar por aí. Se a equiparação ao holocausto é, tanto politica como histórica e moralmente, errada, também o é a equiparação da justeza da intervenção israelita com uma desejada investida, forjada nos manuais de história contra factual, que tivesse contrariado o apaziguamento de Chamberlain. Por motivos vários, um dos mais importantes, o perigo real que o Hamas comporta.
    A superioridade dos Israelitas em 1948, que arrasta diversas explicações, entre as quais o facto de o grosso dos Israelitas não serem originários da Palestina, em relação aos palestinianos não pode ser uma justificação ética para a expansão territorial dos seus limites espaciais: neste aspecto não há um insulto, apenas a constatação que esse consagra a elevação do poder a argumento último à definição das fronteiras (numa perspectiva realista clássica, vocês que gostam tanto de o resgatar, isto não seria possível devido a uma acção de balancing. Para mais, é um vício de qualquer para-cientista social descobrir uma teoria que explique tudo). E isto é um argumento igualzinho aos que foram esgrimidos para defender a colonização. Há diferentes graus de desenvolvimento, de poder, de força, o que quiseres: os teóricos da dependência, que tiveram o seu mérito centravam a sua análise nessa relação dialéctica: surgem duas questões, como surge a essa relação desigual (deve-se à natureza congénita dos povos?) e a outra, com o processo de descolonização (e outros movimentos igualmente importantes) a conquista deixou de ser um instrumento aceitável (não me faças recordar a histrionia aquando da intervenção russa na geórgia). Quanto ao argumento da moralidade, que acaba por justificar todo o tipo de guerras (preventivas e preemptivas), é bom recordar quais os argumentos alemães para a invasão dos sudetas.
    Argumento da estultícia dos palestinianos: só vens confirmar o que tinha escrito. São espertos porquanto votem nos bons. Tanto paternalismo e tanto condicionamento…
    Quanto à esquerda e extrema-esquerda: mais jargões que andas a beber no blasfémias e afins e uma tentativa de afundar o barco da discussão cordata e com argumentos, recorrendo à lógica binária dos nossos estimados comentadores do comum.
    Quanto ao último vómito de argumento, não concordo com ele, mas olha que já regurgitaste enormidades do mesmo calibre. Nada de novo, portanto…

    • PR
    • 19 de Janeiro, 2009

    Vocês estão todos muito tensos. Precisam de relaxar. Deixo aqui a dica.

    http://www.youporn.com/

    • Sílvio Mendes
    • 19 de Janeiro, 2009
  4. Sílvio,
    Infelizmente não tem ido além disso. Gostaria que a coisa se invertesse.

    Phillipe, 😀

    Zé,
    «Quem defende o fim das hostilidades quer a paz, quem não quer, quer a guerra» – Não ponhamos as coisas assim, porque em última instância significa que a guerra é feita pelos que gostam de destruição e abominam a paz.

    «Não pode ser uma justificação ética para a expansão territorial dos seus limites espaciais» – Quanto à conquista de território, temos de ter em conta que a insurreição de 1967, completamente falhada, foi bloqueada em poucos dias e naturalmente enfraqueceu os «revolucionários» palestinianos. Outra consequência foi a perda de território, um efeito normal em guerra. Os palestinianos arriscaram o seu território. O que não significa que Israel não possa ceder para apaziguar os vizinhos, num acordo para dois Estados.

    «Só vens confirmar o que tinha escrito. São espertos porquanto votem nos bons. – Foi uma provocação, pá. Se foram inteligentes o suficiente para manter a Fatah em descrédito durante anos e anos, também chegaram a um ponto de ebulição e chamaram o Hamas ao poder. Agora parece que estão arrependidos, o que diz muito do que o Hamas deve fazer na Palestina (para além do que é noticiado por cá). São eleitores como outros quaisquer.

    «Jargões que andas a beber no blasfémias e afins – Nem por isso.

  5. No comentário leia-se «Phillipe e ‘PR’».

    • José Pedro Monteiro
    • 20 de Janeiro, 2009

    Finalmente que se fala de alguma coisa séria… estou no posto de trabalho mas logo a noite ja vou ver isso.

    E a perda de território não é assim tão normal numa guerra: é normal numa guerra de conquista, certo? Nas outras não é aceitável: Itália em 45, Alemanha (no grosso, tirando a parte que foi dada à Polónia como compensação), Japão. E temos mais por aí…

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