Americanices

Estão milhares de pessoas nas ruas de Washington. Milhões estão em casa com as televisões ligadas a ver aquilo que é transmitido desde a capital dos EUA. Não estão à espera de um músico nem de ver uma partida de futebol. Estão à espera do momento de confirmação de um homem. Um político. Um político negro. O próximo Presidente dos Estados Unidos. Barack Obama.

O ânimo, a alegria, a esperança e a confiança que este homem inspira nos americanos é quase irreal. Nos dias que correm, é difícil haver tal veneração de alguém que faz política.

Mas, este não é um político qualquer. Podemos olhar para ele e ver o “tal” político do século XXI, aquele que nos fora prometido. Obama é um homem que inspira e gera motivação. Que motiva, que impulsiona as pessoas. É alguém em quem os americanos acreditam genuinamente. Em quem têm fé. Em quem depositam as suas esperança de mudança. Os americanos e, diga-se, o resto do Mundo também.

Olhando para os preparativos da cerimónia de inauguração de Obama, fica um certo ciúme. Ciúme porque nós não nos sentimos inspirados pelos nossos políticos. A não ser para dizer mal e atirar ovos, nenhum político ou governante português arrasta milhares e milhares de pessoas atrás de si.

Não estamos unidos atrás de ninguém. Não acreditamos em ninguém. Não achamos que valha a pena – e, em boa verdade, eles também não se esforçam muito por isso. Não nos sentimos inspirados por quem governa, nem motivados a fazer mais do que aquilo que já fazemos.

Olho para o clima que se vive na América nesta altura e fico a pensar se não é de todo possível experimentar um tal estado de euforia em torno da política e da democracia na Europa. Um estado de confiança e um período de fé em alguém. Fé e certeza de que ele/ela nos vai guiar e tirar desta crise, deste marasmo em que estamos instalados e ajudar a melhorar a nossa vida.

Deve ser reconfortante ter fé em quem governa. Tem de ser animador acreditar no sistema político e naqueles que dele fazem parte. Só pode ser inspirador ter confiança no governo e nas suas reformas.

Os EUA vivem uma época de mudança. E de esperança. Estão no renascimento da sua democracia. E nós? Ainda estamos na Idade Média? Quem vai ser o nosso “Obama”? Quem nos vai libertar das trevas?

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  • Comentários (14)
  1. “Deve ser reconfortante ter fé em quem governa.”

    Phillipe, não creio que seja, de todo, esse o objectivo da Democracia. A ideia não ter fé num messias: é ter participação e representação. Eu cá prefiro um político em quem reconheça bom senso e capacidades de gestão. O mundo já tem demasiados megafones, por mais “bonitos” que sejam. Esperemos que este paradigma de acção democrática mude.

    Em Portugal, o sistema partidário está mais que falido. Talvez nas próximas décadas surjam mais partidos «temáticos», como os Verdes, só que para os mais variados assuntos. E as associações, que são indispensáveis à representatividade dos cidadãos. Isto tudo com um pouco de debate e reflexão são capazes de pôr o país no sítio.

    Infelizmente, são poucas os lares em que se pode discutir qualquer assunto, à mesa de jantar, sem haver gritaria. E isso diz tudo sobre a mentalidade desta gente.

  2. Só queria deixar aqui um reparo. Não era, de todo, minha intenção dizer que a democracia trata da veneração de um sujeito.

    A ideia central dessa expressão – “Deve ser reconfortante ter fé em quem governa” – trata, essencialmente, do facto de ser extremanente positivo para o funcionamento da democracia que haja uma confiança, uma crença nas capacidades de quem está no Governo, de quem tem o poder executivo.

    E, naturalmente, a minha observação vem do facto de não encontrar na Europa essa fé nos políticos. Não foi minha intenção fazer a promoção da necessidade de encontrarmos o Messias.

  3. «Olhando para os preparativos da cerimónia de inauguração de Obama, fica um certo ciúme.»

    Ciúme porque não tenho 56 milhões para arrotar assim😛 Como disse ontem o CR7, quanto ao acidente no Ferrari (que partiu o carro todo), «paciência».

    «Os EUA vivem uma época de mudança. E de esperança.»

    Possivelmente vão cair de queixos quando acordarem, mas partilho (algum) desse entusiasmo.

    Hugo, discordo. Para ter estabilidade governativa talvez Portugal devesse implementar o sistema eleitoral maioritário.

  4. Com estes mesmo políticos? Era desculpa esfarrapada para gastarem à grande e à francesa.

  5. Isso não tem nada a ver. O sistema eleitoral não tem a ver com a qualidade das instituições, os checks and balances e por aí adiante. Com o sistema maioritário a alternância (previsível) entre dois partidos daria estabilidade governativa.

    • José Pedro Monteiro
    • 20 de Janeiro, 2009

    É mentira que o sistema eleitoral nao tenha nada que ver com a qualidade das instituições. Até pela confiança que é depositada nestas.

    Quanto ao sistema maioritário, recomendo o último livro do André Freire, Meirinho, etc… O problema de Portugal não é de todo a estabilidade governativa. E muito menos ouses associar a instabilidade económica à instabilidade eleitoral. Exemplos vários: Itália, França. etc…

  6. Tenho o livro e já o li, ainda que na diagonal para já. Continuo inclinado para o que diz Braga de Macedo (no site do Instituto Sá Carneiro). De resto de acordo: a estabilidade não depende unicamente do sistema eleitoral.

  7. Já agora: onde é que eu falei em estabilidade?

  8. Bem visto! Se D.Sebastião não pode vir, quem fará as nossas mudanças?
    Mas, creiam, amigos, enquanto não se começar a “varrer”o lixo que nós por cá temos… não sei se há “Obama”que nos arrebite…

  9. Então ao que te referes quando falas de «falência» do regime? O problema está nos governantes? E a ‘casta’ seguinte vai ser radicalmente diferente para melhor?

  10. Na Europa existe uma natural desconfiança da autoridade, do poder, de quem está no Governo. Tendencialmente, essa desconfiança tem reflexos ao nível da crítica e do insulto a quem faz política.

    Nos EUA, a forma de ver e viver a política é bem diferente. E, normalmente, o respeito pelas instituições é bem diferente do que aquele que vigora na Europa onde, acredito, só nos fazia bem encontrar o nosso Obama, alguém que nos motive a sermos melhor do que aquilo que somos actualmente. E que confira prestígio e respeito às nossas instituições.

    Depois, concordo que o nosso sistema eleitoral está falido. E estou em crer que só poderíamos beneficiar na sua reforma.

    • José Pedro Monteiro
    • 21 de Janeiro, 2009

    Reforma em que sentido?

  11. Confesso que não tenho uma ideia absoluta sobre este tema. Acredito, pelo que vejo, que a forma como actualmente elegemos o parlamento – e, por consequência, o Governo – não garante a maior e melhor representatividade dos cidadãos.

    Pode ter algo de cliché, mas alguém sabe quais são os seus deputados? Os do seu círculo, digo. De Braga, sei que está lá o Nuno Melo. E mais um ou outro, que conheço de cara.

    A adopção de um sistema maioritário, é uma alternativa. A adopção de um colégio eleitoral, um pouco à imagem do que acontece nos Eua, poderia permitir maior transparência a todo o processo. A regionalização seria outra forma de dar mais vida ao processo político, com os eleitores a terem um papel mais significativo na escolha dos nossos representantes locais.

    Aquilo que me parece é que o actual sistema político padece de uma evidente falta de identificação entre político/deputado e eleitor. Tomar medidas no sentido de fortalecer laços e reforçar ligações seria positivo e mais saudável para o nosso sistema eleitoral.

    Mas, mais uma vez, reconheço a crueza de algum destes argumentos, proventura apenas identificando o principal mal. Seria preciso estudar e averiguar que sistema político/eleitoral serviria melhor os interesses da população, tal como entender como a proposta de regionalização – desde que bem feita – pode ser já um importante contributo para essa mesma reforma.

  12. “Então ao que te referes quando falas de «falência» do regime? O problema está nos governantes? E a ‘casta’ seguinte vai ser radicalmente diferente para melhor?”

    Que não nos vai levar a lado nenhum. A única hipótese de o país mudar, com este sistema, é por mero acaso. Comprar banquinhos e ver a marcha a passar.

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