Nepotismo

A cada coisa o seu nome e este caso do Freeport tem o de nepotismo. Como bem assinala o João Miranda, o favorecimento empresarial de um político a familiares é, apesar de legal, eticamente reprovável. E mais o é tendo, no caso, o primo de José Sócrates recebido dinheiro pela actividade de intermediação entre o – na altura – ministro do Ambiente e o empresário Charles Smith, representante da Freeport. Ora:

  • O essencial já é certo: que Sócrates, que supostamente deve apenas favorecer o interesse público, favoreceu familiares e que, portanto, a sua conduta deveria desde já ser reprovada pela sociedade por ser eticamente errada. O pior é que, como observa João Miranda, se não se provar ilegalidade tudo ficará no terreno jurídico e Sócrates dirá sempre que não cometeu qualquer ilegalidade.
  • Porque é que, então, uma conduta eticamente reprovável não é reprovada pela opinião pública (pelo menos isto não parece ter-se tornado um escândalo político, a não ser que eu tenha visto mal)? Esta interpretação diferente da que aconteceria em países anglo-saxónicos, por exemplo, deve-se à tal «ética protestante» (Weber), diferente da católica, que moldou as sociedades reformadas e as distanciou dos povos latinos?
  • Sócrates diz que não conhece Charles Smith e que a reunião que teve a propósito do Freeport deu-se após pedido da Câmara de Alcochete (CDU). O tio de Sócrates diz que conseguiu a Charles Smith uma audiência com José Sócrates. Quem mente? Sócrates ou o tio? E a Câmara de Alcochete, virá negar a afirmação de Sócrates?
  • José Sócrates disse em 2005 que nada sabia sobre o processo Freeport. Nessa altura havia rumores de que o tal ex-ministro de Guterres fosse ele. Hoje Sócrates disse que teve uma reunião com responsáveis do Freeport.
  • A três dias das Legislativas de 2002, que deram a vitória a Durão Barroso, foi alterada a legislação sobre a Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo, assim permitindo que o licenciamento do Freeport não fosse chumbado.
  • Sócrates diz que, tal como em 2005 quando foi abordado pela primeira vez em relação a este tema, a proximidade de eleições legislativas faz com que o ressurgimento do caso Freeport tenha motivações políticas. É uma possibilidade, ainda que não fique bem ao primeiro-ministro dizê-lo. Fica menos mal ao PSD reverberar as afirmações de Miguel Cadilhe de que a nacionalização do BPN teve motivações políticas, mas aí foi Sócrates quem reprovou Manuela Ferreira Leite.
  • A polícia inglesa detectou a transferência de avultadas somas para contas em off-shores. O Freeport inglês (a casa-mãe) disse que essas transferências foram feitas para facilitar o licenciamento do Freeport de Alcochete.
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  • Comentários (1)
  1. Onde andam, agora, esses seres bem pensantes que exigiam, há pouco tempo atrás, a demissão de Dias Loureiro?

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