Mais umas coisas sobre Gaza

Yahya Al Abadsa é um deputado do Hamas. Yahya Al Abadsa deu uma entrevista a Alexandra Lucas Coelho em Gaza. Yahya Al Abadsa esteve preso nas cadeias de Israel durante cinco anos. Yahya Al Abadsa diz que nunca vai reconhecer Israel. Yahya Al Abadsa diz que aceita a criação de um único Estado que inclua judeus. Mas, Yahya Al Abadsa nunca vai reconhecer Israel.

A entrevista tem muita matéria de interessante análise e discussão. Primeiro, Abadsa refere que em Gaza não há um cessar-fogo: “Não há cessar fogo verdadeiro. O cessar-fogo é de acordo com o ponto de vista israelita, o que lhes dá o direito de agirem contra os palestinianos quando querem”.

Acrescenta que Israel já matou três palestinianos desde o cessar-fogo e que não tem sido o Hamas a lançar rockets contra o Estado judaico. No entanto, justifica o lançamento de rockets – não estes, os outros – com o facto de a Palestina ser um estado ocupado. E os rockets servem para combater o invasor.

Mas, um dos aspectos mais interessantes da conversa publicada hoje no Público tem a ver com a aceitação de Abadsa do sacrifício popular. A Nação está acima do indivíduo. Se para a Nação garantir a sua independência tiver de haver sacrifício do indivíduo, que assim seja.

“Qualquer povo que queira viver com dignidade tem de pagar um preço, e isso é legítimo“, conclui a este respeito o deputado do Hamas.

Abadsa prossegue, comparando o esforço de resistência do povo palestiniano com o do francês durante a ocupação alemã na II Guerra Mundial, fazendo uma analogia entre o governo de Ramallah e o executivo pró-alemão liderado pelo general Pétain em França.

A propósito de Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestiniana, Abadsa diz que se trata de um  “traidor” que dever ser “levado a tribunal”. Os crimes de Abbas são a divisão do povo palestiniano e o aprisionamento de membros da resistência palestiniana.

A segunda parte da entrevista versa sobre Israel e quais teriam de ser as condições para que o Hamas pudesse reconhecer o país. Abadsa começa por lembrar que até 1948 não existia um Estado judaico no Médio-Oriente, lembrando que até o pai dele é mais velho do que Israel. Critica a tentativa de instalar um país à força e condena a ideia de que os “judeus expulsos da Europa no Holocausto” resolvam o seu problem à custa deles, do povo palestiniano.

Para resolver a crise que opõe Palestina e Israel a solução é simples. “Israel tem de sair das terras de 1967 sem condições, a troco de paz. E nenhum atacará o outro. Mas reconhecer Israel, isso não. Ter relações normais com Israel não”, referiu um dos poucos deputados do Hamas a falar à imprensa ocidental.

“Digo-lhe honestamente: não há futuro para Israel enquanto estado racista, judaico. Não há futuro para um país assim. O nosso problema é a democracia. Se a democracia prevalecer no mundo árabe, Israel não se aguentará. Israel aguenta-se não por causa da sua força militar, ou poder americano, mas devido à corrupção dos regimes árabes”, conclui Yahya Al Abadsa.

Tony Blair diz ser importante juntar o Hamas à mesa das negociações. Não digo que não. Porém, em questões de diplomacia internacional é importante saber quais são os pontos onde se pode ceder e os outros onde temos de ser intransigentes. O Hamas, claramente, já desenhou essa linha. Aceita um único estado que inclua judeus. Não aceita um Estado judeu. Não me parece que Israel negoceie nestes termos. E, também, não me parece que este cessar-fogo aguente muito tempo. Aliás, para o Hamas, ele nem é real. E será mesmo?

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  • Comentários (2)
    • josepedromonteiro
    • 2 de Fevereiro, 2009

    Phillipe,

    voltamos ao mesmo. Primeiro, há elementos do Hamas que aceitam reconhecer o Estado de Israel, com as fronteiras de 67. Mesmo o entrevistado regista isto :
    “Digo-lhe honestamente: não há futuro para Israel enquanto estado racista, judaico. Não há futuro para um país assim.” Certo? Se estas são as condições que implicam isto “Israel tem de sair das terras de 1967 sem condições, a troco de paz. E nenhum atacará o outro. Mas reconhecer Israel, isso não. Ter relações normais com Israel não”, implica uma ideia de condicionalidade.
    Segundo, os últimos rockets foram da autoria da Brigada de Mártires Al Aqsa (Fatah). E agora? Elimina-se a Fatah também?
    Terceiro, afinal, já se negoceia com terroristas?

  1. Zé,

    Reconhecer que se aceita negociar com Israel se estes voltarem às fronteiras de 1967 para, depois, terminar a dizer que não se acredita na sobrevivência do Estado judeu não me parece, de todo, nem fiável, nem coerente. Aliás, quer-me parecer que, logo à partida, se trata de um discussão inquinada.

    Depois, não se negoceia com terroristas. Blair, esse, disse que essa era capaz de ser uma boa ideia uma vez que o Hamas representa parte da população – que, influenciada ou não pelo próprio Hamas, recusa a legitimidade da Autoridade. Porém, essa mesma sugestão não está isenta de perigos e de impossibilidades.

    Israel, estado soberano e de direito, não se vai sentar à mesma mesa que uma organização terrorista. A meu ver, para o Hamas ser aceite por Olmert e amigos à mesa das negociações teria de cumprir uma série de requisitos: a) renunciar à prática (e apoio) de qualquer actividade terrorista; b) reconhecer o Estado de Israel, aceitando negociar delimitações fronteiriças após ou durante as conversas de paz; c) aceitar o direito do povo judeu à vida naquela região, debaixo de um governo judeu e não apregoar que a única solução é a existência de um único estado, com os judeus em inferioridade e com os palestinianos no poder.

    Não aceitar o compromisso é rejeitar qualquer possibilidade de paz. Aceitar a possibilidade de negociar com Israel ao mesmo tempo que se diz duvidar da possibilidade desse mesmo Estado se aguentar muito mais tempo – com tudo o que essa declaração pode ter de implícito – é que não me parece razoável. Mais, parece-me vir de quem não deseja a paz.

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