A Galp fez dinheiro a mais em 2008

O PCP quer ouvir, em audição parlamentar, o presidente da GALP. Motivo? Os lucros da companhia em 2008, ano em que Portugal entrou no barco da crise internacional. Com tantos portugueses em dificuldades, o PCP quer perceber como a Galp conseguiu acabar o ano em alta.

Ideologicamente, a posição dos comunistas faz sentido. Aliás, eu ficaria preocupado se os camaradas se limitassem a aplaudir os bons resultados de uma empresa portuguesa num sector competitivo como o dos combustíveis.

O PCP quer saber como os lucros da Galp foram possíveis e, mais do que isso, discutir as razões para a “lentidão” na alteração dos preços dos combustíveis e analisar os dividendos previstos para os colaboradores da companhia.

Pessoalmente, tudo isto me parece uma parvoíce. E é parvo por algumas razões. Em primeiro lugar, o facto de estarmos mergulhados numa crise não quer dizer que todas as empresas apresentem resultados negativos. Querer chamar o presidente da Galp ao parlamento dá a ideia de que o PCP preferiria que todas as empresas estivessem em risco da falência, de modo a poderem  jogar a carta da nacionalização e organizarem greves dos trabalhadores e sacarem o voto do desempregado.

Depois, o argumento da lentidão nas baixas dos combustíveis também é relativamente parvo. Não é a Galp quem determina como se calculam os preços dos combustíveis. Toda aquela relação do preço de hoje tem efeito em 3/4 meses não é obra da Galp. Eu adoraria que o preço dos combustíveis fosse o reflexo imediato do preço do brent. Porém, há sempre um acerto que é preciso fazer – que custa mais quando é para baixo do que quando é para cima.

Mais, a Galp não opera sozinha no mercado nacional. BP, Repsol e Cepsa – entre outras – também estão a operar em Portugal e os seus preços são semelhantes aos praticados pela Galp – alguns até mais elevados. Chamar o presidente da Galp por teimar em não descer os preços dos combustíveis implica que se convoquem todos os outros para explicarem o mesmo. Uma questão de coerência – ou os outros não tiveram lucros?

Os dividendos são pagos a quem investiu na empresa. Se a Galp estivesse sob protecção do Estado, eu diria que se deveria estabelecer um tecto limite ao nível desses ganhos extra – ou, mesmo promover a sua suspensão por tempo indeterminado. Porém, a Galp é uma empresa maioritariamente privada, cotada em bolsa, e faz sentido que os seus investidores sejam recompensados pela boa gestão e resultados positivos da mesma.

Não faz sentido promover o escrutínio público de uma empresa por esta ter lucros. Faz sentido escrutinar uma empresa para garantir que ela cumpra as regras do mercado. E, assim sendo, se houver indícios de manipulação do mercado, o presidente da Galp deve mesmo ser ouvido.

Mas, se isto não passa tudo de uma demonstração do PCP a ser igual a si mesmo é desnecessário e inútil. Os deputados da República deveriam ter coisas mais importantes para fazer. 

Todavia, tudo isto faz todo o sentido quando vemos qual o partido que está atrás da moção. Se fosse o PS, ou outro dos partidos de direita, já ficava preocupado. Agora, como é o PCP…

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  • Comentários (1)
    • jorge ribeiro gomes
    • 1 de Abril, 2009

    É o país que temos, uns (poucos) tiram usufruto da conjuntura e os muitos pagam a factura… basta olhar para as empresas que obtiveram lucros extraordinários e observar que se situam em sectores estratégicos. Como se não bastasse arrogam-se o direito de considerar normal a situação e a distribuição de lucros pelos accionistas, mas se a corda rompe e a situação se lhes complica… ai, ai, ai venha o estado salvar-nos (que é como quem diz o zé povinho pagar a factura) e tudo na mesma… a situação actual deriva destas atitudes e da constante desvalorização do valor do trabalho, trabalhar não rende, Se um trabalhador quer ter uma vida digna (para além das dificuldades em arranjar trabalho) tem de acumular vários e mesmo assim fazer ginástica orçamental para conseguir chegar ao fim do mês num sufoco menos apertado. Eu quero ver se no futuro os bancos também vão socializar os lucros como agora socializaram os prejuízos… O liberalismo está felizmente em agonia, falta dar o passo para uma sociedade de futuro e com futuro, onde a intervenção do estado além de proteger os mais poderosos, proteja quem realmente produz riqueza, os trabalhadores. Com toda a certeza se isso acontecer a própria capacidade produtiva aumenta e com isso o país e o mundo evolui. Como nota final era interessante saber qual a parte desses lucros que vão ser distribuídos pelos seus trabalhadores. Há que alterar transversalmente a organização económica: entrar no século XXI.
    Para tal as forças progressistas tem de agir para transformar a sociedade.

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